Associação Catarinense de Preservação da Natureza
Blumenau, 26 de Janeiro de 2020

NOTÍCIAS

Quadrilhas extraem palmito clandestino

.: 01 / Set / 2008

Quadrilhas estão usando táticas do tráfico de drogas para controlar a extração e o comércio de palmito na Mata Atlântica de São Paulo, área de preservação ambiental. Os repórteres do Fantástico investigam cada detalhe do esquema que você vai conhecer agora.

Duas horas de caminhada dentro da mata. De repente, um sinal de que há bandidos por perto.

“É uma palmeira nova, recém-cortada”, avalia o policial.

O produtor do Fantástico acompanha uma blitz da Polícia Ambiental, no Parque Ecológico de Sete Barras, no Vale do Ribeira, São Paulo.

“Tenho a impressão de que a gente está sendo observado o tempo todo”.

Perto de um córrego, o medo se confirma. Sons de tiros são ouvidos. Ninguém se feriu. Com cautela, os policias seguem para o lugar de onde partiu o disparo.

Encontram apenas um acampamento abandonado às pressas. “Eles agem em bando. Meia dúzia, dez, 12 pessoas”, diz um policial.

Segundo a polícia, grupos assim estão espalhados pelas reservas ambientais do Vale do Ribeira, uma área de cerca de três mil quilômetros quadrados, entre São Paulo e Paraná.

O alvo dos bandidos são as palmeiras, uma espécie nativa da Mata Atlântica ameaçada de extinção.

“A grande maioria dessas pessoas que se envolvem com a exploração clandestina do palmito tem antecedentes criminais”, afirma o tenente-coronel Milton Nomura, comandante da Polícia Ambiental.

Do caule, as quadrilhas extraem o palmito-juçara, considerado o mais saboroso de todos os tipos de palmito. Quem pratica esse crime ambiental pode ficar até cinco anos na cadeia. Todo mundo sabe, pouca gente respeita, admite um morador da região que produz o palmito clandestinamente.

“Aqui, 99% das pessoas mexem com isso daí”, diz.

Nas últimas três semanas, o Fantástico investigou as chamadas quadrilhas de palmiteiros, que comercializam o produto em grande escala. O esquema começa com a compra de potes de vidro que já foram usados e serão reaproveitados. A maioria está no meio da sujeira, em depósitos de lixo.

“O pessoal costuma usar pra palmito mesmo. Ninguém reclama”, conta uma mulher.

Numa casa, em Juquiá, encontramos potes dentro de uma bacia com água suja. Assim o rótulo sai facilmente, explica o palmiteiro, que não sabia que estava sendo gravado.

“O vidro é lavado com detergente por dentro”, conta ela.

A investigação do Fantástico incluiu três dias com a polícia dentro das reservas ambientais. Em vários pontos, só se chega de barco. As quadrilhas fazem longas viagens pelo interior da floresta.

No caminho, encontramos o principal meio de transporte dos palmiteiros: cavalos. “No lombo dos cavalos, tinha embalagem contendo carne, carne seca. Tem ração pro animal comer. Às vezes, a trilha é de oito a dez horas de caminhada. Força bastante o animal”, conta um policial.

Na blitz, a polícia apreendeu espingardas e munição. E vários acampamentos foram derrubados.

O palmito extraído ilegalmente é preparado nas fabriquetas. A Polícia Ambiental destruiu o local e encontramos os vidros que eles reaproveitam para colocar o palmito: um é de goiabada em calda. O outro, doce de leite.

Durante a fiscalização, nenhum integrante das quadrilhas foi preso.

“Um dos nossos policiais ainda teve um contato visual, mas você pode reparar na vegetação, como ela é densa. É muito fácil você se esconder e fugir”, conta o policial.

O que também dificulta a prisão em flagrante, segundo a polícia, são os chamados olheiros. Eles ficam espalhados na mata e dão o alerta. Neste caso - na pressa - os criminosos largaram o palmito-juçara ainda cozinhando, dentro dos vidros. O produto é preparado sem as mínimas condições de higiene.

“Após o cozimento, ele já é levado pra algum barco e destinado ao consumo das pessoas”, alerta o tenente Flávio Sukaitis.

Existem ainda olheiros que andam com rádios comunicadores - uma estratégia comum entre traficantes de drogas. A polícia interceptou várias conversas dos palmiteiros sobre uma possível apreensão.

Também foi por rádio que um olheiro avisou que nossa equipe se aproximava do acampamento mostrado no início da reportagem. No caminho, recebemos até ameaça de morte, escrita na casca do palmito. “Sai fora, vocês vão morrer. Porcos fardados”.

Cinco minutos depois, o tiro foi disparado. “A gente fala: tô indo pra lá e seja o que Deus quiser. É perigoso”, avisa um guarda florestal, que tem medo de se identificar e foi ferido num ataque de palmiteiros, em maio deste ano.

“Eles tão mais organizados porque no meio desses palmiteiros aí tem pessoas grandes, né?”.

O palmito clandestino é vendido em média pela metade do preço do legalizado. Clientes não faltam, diz um negociador de uma quadrilha.

“Tem cara que leva umas trezentas caixas, de 15 em 15 dias. O cara vem buscar de caminhão”. Isso representa cerca de seis toneladas por mês.

Ele diz ao nosso produtor que se apresentou como dono de restaurante o que fazer quando os potes são entregues sem rótulo pelas quadrilhas.

“Manda fazer um rótulo, com qualquer nome mesmo. Tem que ser em gráfica, aí você compra o rótulo”.

O Fantástico visitou uma empresa legalizada, que distribui palmito em conserva para todo o Brasil. O dono do negocio já foi vítima das quadrilhas que agem no Vale do Ribeira. Os criminosos chegaram a falsificar o rótulo com a marca da empresa para comercializar o palmito extraído de forma ilegal.

“Até devolveram a carga de produto nosso achando que nosso palmito era clandestino”, conta Filipe Pedro Messias, dono da fábrica.

A fábrica vende palmito pupunha, que sai de plantações legalizadas e não de reservas de Mata Atlântica, como as quadrilhas fazem com o juçara.

“Um apelo que a gente faz aqui, é para você não parar de consumir o palmito. Só que você tem que saber a procedência desse palmito”, pede Filipe.

Por R$ 7,69 compramos num supermercado de Registro, um vidro de palmito. A tampa foi pintada e tem marcas de ferrugem. Quem liga para o número do telefone que consta no rótulo descobre a fraude.

“Há cerca de oito anos ligam pra minha casa como se fosse atendimento ao consumidor dessa fábrica de palmito”, conta Augusto de Moraes, dono de um canil.

Augusto é dono de um canil, em Belém do Pará, a mais de três mil quilômetros do Vale do Ribeira. Conta que já ouviu muita reclamação sobre o palmito clandestino.

“Produto já estragado, produto com mau cheiro. A maioria das pessoas que ligam pra fazer queixa sobre esse produto é de São Paulo”.

Era pra Taboão da Serra, na Grande São Paulo, que ia um carregamento de meia tonelada. Os potes foram apreendidos sexta-feira passada, na Rodovia Régis Bittencourt, em Registro. A Polícia Ambiental apreendeu o carro e estipulou o valor da multa em R$ 20 mil.

No laboratório, ficou constatado que o produto não seguia os critérios de higiene. A análise apontou até alimento estragado.

Na delegacia, o palmiteiro foi liberado sem pagar nada, mesmo admitindo que já tinha feito duas entregas para a mesma pessoa.

“Ou é dono de restaurante ou vai vender, né?”, diz ele.

“Eu diria pra você que alguns restaurantes e algumas pizzarias possam estar fazendo uso desse tipo de produto, porque o consumidor não sabe de onde vem o palmito”, afirma Milton Nomura.

No ano passado, Luiz Alberto comeu pizza de palmito e teve botulismo. Por causa da intoxicação, que é provocada por uma bactéria e pode até matar, o adolescente ficou dois meses no hospital.

“Ele já não falava mais direito, mal ficava em pé sozinho. Lembrar disso ainda dói”, conta a vendedora Silvana Coelho, mãe de Luiz Alberto.

As autoridades recomendam que o consumidor preste muita atenção na embalagem e prefira estabelecimentos de credibilidade comprovada. E, na dúvida, a dica é só comer palmito que tenha sido fervido por pelo menos 15 minutos.

“Descaracteriza um pouco aquele palmito bonito que nós conhecemos, mas é a garantia de que não teremos a bactéria no momento de consumir esse palmito”, alerta Maria Cecília Martins Brito, diretora da Anvisa.

“O Ministério Público pretende localizar e apontar os transportadores, os falsificadores de documentos e os grandes armazéns distribuidores, enfraquecendo essa cadeia”, avisa o promotor do Meio Ambiente de São Paulo José Roberto Fumach Junior.


Fonte: Fantástico / Rede Globo


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