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Esperança para a memória de Fritz Müller



Por Lauro Bacca*

Por Redação

Última atualização 13/04/2026

Fritz Müller em 1886, em cena típica, descalço e com um cajado. Foto: Arquivo Histórico de Blumenau

Se há uma personalidade de Blumenau e Santa Catarina que tem recebido reconhecimento em muitos outros lugares, ela se chama Johann Friedrich Theodor Müller, ou, simplesmente, Fritz Müller, o maior naturalista do Brasil e um dos maiores do mundo no século 19.

Emigrado da Alemanha, onde nasceu em 1822 e com sólida formação intelectual e científica centrada em Medicina e, principalmente, na História Natural, chegou a Santa Catarina em 1852, naturalizou-se brasileiro e aqui se tornou mundialmente conhecido pelos seus estudos sobre nossa natureza tropical e por sua fundamental contribuição à então teoria da Evolução do inglês Charles Darwin.

O apoio aos estudos de Darwin quando residia na então Nossa Senhora do Desterro, capital da província, foi tão relevante que se pode dizer que, depois das pesquisas de Fritz Müller a Evolução deixou de ser teoria para ser considerado um fato científico que logo foi se consolidando como está até hoje.

O enorme legado científico, a personalidade ímpar, o despojamento total, viajando preferentemente a pé e descalço, a firmeza de ideias e princípios e ser olhado por alguns como um tipo quase excêntrico fez de Fritz Müller um personagem histórico, carismático e atual. Não à toa, em Blumenau, sua terra adotiva, esse naturalista é patrono de pelo menos 17 logradouros ou entidades.

Fritz Müller ainda é nome de rua nas cidades de Indaial, Floranópolis (sic!), Joinville e São Paulo, até onde temos conhecimento. Em Balneário Camboriú existe a Choperia e o Restaurante Fritz Müller. Na Academia de Letras de Biguaçu-SC ele é o patrono da cadeira 13; também é patrono da Polícia Militar Ambiental do Estado de Santa Catarina e da maior honraria ambiental estadual, o Troféu Fritz Müller.

Há poucos anos foi denominado por lei municipal de Estuário Fritz Müller, a região da foz do riacho que drena pelo manguezal do Itacorubi, em Floranópolis (sic!). Ainda na capital do estado, onde residiu e foi professor por onze anos, uma fachada lateral cega inteira de um edifício, correspondente a 10 andares, recebeu uma gigantesca pintura em homenagem a Fritz Müller.

Se juntarmos tudo o que já foi publicado sobre Fritz Müller, certamente preencheria mais de um metro de estante com milhares de páginas, meio metro já publicados em português. Ainda no fim do século passado, tivemos o “Dear Mr. Darwin” – a intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin, de Cezar Zillig, de 1997, pioneiro na revelação das cartas trocadas entre os dois naturalistas que se tornaram amigos epistolares.

Em inglês, destaque para dois livros publicados pelo norte-americano David West, “Fritz Müller, a naturalist in Brazil” (Fritz Müller, um naturalista no Brasil) de 2003 e “Darwin’s Man in Brazil” (O homem de Darwin no Brasil) de 2016.

Em português, por ocasião dos 200 anos de seu nascimento acontecido em 2022, várias foram as publicações sobre nosso naturalista maior. Citamos aqui, por ora, apenas os três últimos maiores lançamentos: as impressionantes 1.376 páginas fartamente documentadas e ilustradas, distribuídas em três tomos do “Fritz Müller-Desterro, o ser humano e sua Ciência”, do geógrafo Marcelo Nascimento (2023), o apaixonante, contextualizado e muito bem fundamentado “Fritz Müller, o gênio desconhecido que pôs o Brasil no centro da revolução científica de Charles Darwin”, do jornalista Evandro de Assis, lançado em novembro de 2025 e, saído quente do forno, o espetacular e muito bem elaborado livro bilíngue “Cartas entre Fritz Müller & Charles Darwin”, organizado pela historiadora Ana Maria L. Moraes, deste ano de 2026.

Durante a cerimônia de lançamento do livro de Ana Moraes, na noite do último dia 31 de março, foi recebida com euforia pelos presentes a notícia de que a Universidade de São Paulo, a maior e mais importante universidade brasileira, concedeu, nesse mesmo dia, o título de Doutor Honoris Causa a Fritz Müller, somando-se à mesma honraria já anteriormente concedida pelas Universidades alemãs de Bonn (1868) e Tübingen (1874), quando Fritz ainda estava vivo, mais a Universidade Federal de Santa Catarina (2009) e Universidade Regional de Blumenau (2014).

Já o maior patrimônio material ainda existente, a herdade, ou, o terreno e casa onde Fritz Müller morou nos últimos 30 anos de sua vida, infelizmente, porém, não tem recebido a especial atenção que merece. No entanto, depois de diversos tristes períodos de mais descasos do que cuidados e ser considerado mais problema do que oportunidade para a maioria das últimas administrações municipais, confirma-se agora a notícia de que a “Casa Fritz Müller” será novamente reaberta ao público no próximo dia 17 de junho.

Que essa reabertura represente o fim de lamentáveis e sucessivos amadorismos e o fim de décadas de grotescas trapalhadas que aviltaram as características originais do lugar onde morou nosso naturalista maior.

Que a próxima reabertura represente o ponto de virada em direção a um futuro de gestão e cuidados técnicos permanentes, que perpassem administrações, para que a casa e terreno onde morou Fritz Müller torne-se o local de memória histórica de Blumenau e de Santa Catarina e patrimônio cultural e científico nacional.

E que tudo isso obedeça, doravante sim, aos princípios estabelecidos e consagrados da museologia e da preservação do patrimônio histórico e cultural, como deve ser e como acontece em países que levam a sério o legado de seus antepassados.

Dedicado a Marcondes Marchetti e Marcos Schroeder

Texto com adaptações e aproveitamento parcial de artigo já publicado na mídia pelo autor em novembro de 2025.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

Fonte: https://oauditorio.com/colunas/lauro-bacca/04/2026/esperanca-para-a-memoria-de-fritz-muller/