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Teoria da Relatividade Ecológica



Teoria da Relatividade Ecológica

Por Lauro Bacca*

Por

Redação

Última atualização 20/04/2026

Foto: Freepik/Imagem ilustrativa gerada por IA

Fica tranquila, cara e preclara leitora e leitor. Nem em sonhos ousaria querer equiparar o tico e o teco perdidos dentro da minha caixa craniana com as respeitáveis trilhões de sinapses de Einstein. Mas que há uma relatividade quando tratamos de questões ambientais, isso há, muitíssimo mais simples de entender do que a teoria física do nosso físico maior. Vejamos alguns exemplos:

1. Tratamento de esgotos. Minha cidade de Blumenau, a exemplo do que acontece em outras cidades do Brasil, orgulha-se de anunciar que, em 15 anos, saltou de quatro para 44 por cento o percentual da população atendida pela coleta e tratamento de esgotos e isso soa, naturalmente, como uma excelente notícia.

Acontece que, há 30 anos, quando se construiu a primeira estação de tratamento de esgoto que atendeu quatro por cento da população, a cidade tinha 197 mil habitantes. Fazendo as contas, os 96 por cento da população sem esse serviço correspondiam a 189 mil pessoas. O crescimento populacional muito rápido em 30 anos nos levou aos atuais 371 mil habitantes e os 56 por cento dos que ainda não são atendidos pelo saneamento na cidade somam 208 mil habitantes.

Exemplo de relatividade, onde mais, por enquanto, representa menos.

2. Reciclagem de lixo. Considera-se excelente quando se atinge 90 por cento de reciclagem de todos os tipos de lixo, índice que a esmagadora maioria dos municípios brasileiros está a anos-luz de atingir. Acontece que há 50 anos não se produzia nem dez por cento do lixo que se produz hoje. As latas de bebidas, por exemplo, eram de metal rapidamente degradável e não de alumínio, que permanece 20 vezes mais tempo poluindo o meio ambiente.

Há meio século, mal e mal se iniciava o amplo uso de plásticos e hoje, dizem, temos microplástico até nos nossos cérebros. Logo, quando algum lugar comemora que recicla 90 por cento do lixo, temos outro caso de relatividade, onde, dez por cento causam mais impacto ambiental do que 100 por cento antigamente. Complicado, não?

3. Caça de animais selvagens. Até cerca de 100 anos atrás, no tempo da juventude dos avós dos que agora já são mais maduros, na falta de outras formas de lazer, um dos principais passatempos nas folgas do duro serviço da época, para muitos, era caçar. Não sabemos a porcentagem, mas, vou arriscar, talvez, quase a metade dos homens da época. Mulheres caçadoras são raríssimas.

Atualmente, felizmente, são relativamente muito poucas as pessoas que ainda caçam (quase todas podendo ser consideradas criminosas, por estarem agindo fora da lei, no Brasil). Vamos supor que sejam menos de um por cento dos homens. A quase totalidade das mulheres, mais inteligentes, não perpetram esse crime.

Acontece que, no caso do bioma Mata Atlântica, até pouco mais de 100 anos atrás, ainda havia muitas florestas extensas e de excelente qualidade, com abundância de fauna. Dali para cá elas diminuíram drasticamente em área, foram fragmentadas, “empurradas” para os últimos grotões e cortadas por milhares de estradas de todos os tipos. Esses últimos fragmentos tornaram-se os últimos e frágeis refúgios onde o pouco que restou da fauna silvestre ainda consegue sobreviver.

Não bastasse isso, se outrora os ambientes naturais eram distantes, na atualidade, graças à prodigiosa rede da malha viária, são muito raros os lugares que não possam ser facilmente acessados pelos dizimadores de nossa fauna.

Como a população brasileira atual é cerca de sete a oito vezes maior que a população de cento e poucos anos atrás, os menos um por cento dos homens que ainda caçam equivalem, em números absolutos, a sete a oito por cento da população da época.

Somando-se esses fatores e outros mais, chegamos a mais uma relatividade, em que menos de um por cento nos dias de hoje causam muito mais danos à fauna do que os 50 por cento que caçavam antigamente.

4. Despoluição dos cursos d’água. Em muitos lugares comemora-se o avanço, ainda que extremamente lento e penoso, da despoluição das águas. Acontece que, nas cidades, principalmente, onde vive mais de 80 por cento dos brasileiros, muitos milhares de quilômetros de riachos, nascentes e córregos estão canalizados e cobertos por concreto e asfalto, portanto, deixando de se constituir em ambiente natural, rico em vida aquática, para se tornar um ambiente estéril, onde a prodigiosa vida original que fazia parte de toda uma cadeia alimentar natural que interagia com o ambiente terrestre, desapareceu totalmente.

Com a despoluição, as águas podem até ficarem límpidas e não poluídas, do ponto de vista físico-químico. No entanto, debaixo de asfalto e concreto, não ostentam sequer um átimo da vida que ali havia originalmente. O sucesso no combate à poluição, nesses casos, também foi relativo e vai chegar o dia em que teremos que resolver mais este tipo de desafio.

Exemplo de relatividade em que, mesmo o importantíssimo e indispensável combate à poluição pode não significar a volta à vida em toda sua plenitude. Mais um desafio sobre o qual quase não se fala, para resolvermos assim que for possível.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

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Fonte: https://oauditorio.com/colunas/lauro-bacca/04/2026/teoria-da-relatividade-ecologica/