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O triste fim de um Lobo-Guará



O triste fim de um Lobo-Guará

Por Lauro Bacca*

Por

Redação

Última atualização 27/04/2026

Cercas para evitar que animais cruzem a BR-470 duplicada. Foto: Jerriane Gomes/Divulgação

Foi no livro “Mamíferos”, com estampas coloridas e em preto-e-branco, edição do MEC – Ministério de Educação e Cultura de 1962, que soube que existia um bicho chamado Guará ou, Lobo-Guará. Em ordem alfabética do A de Anta até o Z de Zebra, passando, naturalmente, pelo G de Guará, em linguagem adaptada ao público infanto-juvenil, como pré-adolescente, fui devorando aquele alfabeto zoológico, num tempo em que ainda não havia TV e muito menos as dispersivas mídias sociais que surgiram muito tempo depois.

Tenho por esse livro um carinho muito especial. Foi um prêmio pelo fato de eu ter vencido o “Campeonato Estudantil de Sabedoria”, produzido e apresentado na então Rádio Nereu Ramos de Blumenau pelo advogado e professor Werner Greuel, a quem presto aqui minha eterna gratidão pelo incentivo ao estudo e ao amor que sempre tive pela natureza.

Sessenta e três anos se passaram desde minha leitura de “Mamíferos” e muito se estudou, escreveu e se publicou sobre os lobos-guarás. No recentíssimo “A Vida Secreta da Natureza – meu guia de campo da Serra Geral de Santa Catarina”, de 2025, Cristina Santos o descreve como “de uma aparência elegante que o torna inconfundível. A sua pelagem tem um tom vermelho-dourado e tem uma crina preta (…). Tem orelhas grandes e eretas, pernas alongadas e caminhar peculiar (…). Suas populações têm sofrido declínio devido à perda de habitat para formação de pastagens e expansão da agricultura” (caso da expansão do plantio de Pinus sp que ameaçam o habitat natural do Guará na região da Coxilha Rica de Lages, por exemplo). “Outro fator de ameaça são os atropelamentos (grifo nosso), quando o lobo-guará atravessa uma estrada durante a noite. Encontra-se em risco de extinção a médio prazo”, conclui a autora.

Nunca soube que existissem lobos-guarás no médio e baixo Vale do Itajaí. Um primeiro registro inédito aconteceu em 13 de agosto do passado ano de 2025, quando um exemplar dessa magnífica espécie foi filmado no pátio de uma empresa, no oeste do município de Blumenau. A Sra. Kolka Y. Meranzova afirma tê-lo avistado na floresta densa do Parque Ecológico Spitzkopf, no sul do mesmo município há alguns anos.

No último dia 23 foi registrado pela primeira vez, até onde consta, um exemplar dessa espécie em Ilhota, já próxima à costa catarinense. Notícia feliz que durou uma ínfima fração de segundo, pois, o bicho fora violentamente atropelado no km 19 da BR 470 nesse município.

O Guará estraçalhado no asfalto em Ilhota não foi o único. Seis dias antes um outro guará foi também atropelado em Água Doce, no Oeste catarinense. Apenas dois, de milhares de atropelamentos diários que caracterizam a tragédia da carnificina em que se transformou a quase totalidade das rodovias brasileiras, sem estruturas adequadas para evitar mais esse golpe (entre inúmeros outros) contra a já depauperada fauna de um país que deveria cantar em seu Hino Nacional, que nossos bosques TINHAM mais vida.

Depauperação faunística aqui tragicamente representada por esses dois pobres lobos-guarás, espécie considerada criticamente ameaçada em Santa Catarina.

Lobo-guará morto em Água Doce. Foto: Divulgação

Convidados pelo biólogo Jerriane Gomes fomos, no mesmo dia do acidente, examinar o local do atropelamento. E descobrimos que sim, a BR 470 já duplicada tem uma estrutura para evitar atropelamentos de fauna. São cercas teladas de aproximadamente 1,5 metros de altura ao longo de praticamente todo o trecho examinado em Ilhota. Mais próximo ao solo, há uma malha mais fina para evitar a passagem de bichos pequenos, até do tamanho de um hamster ou um rato doméstico.

Essas cercas também procuram direcionar a fauna para passagens sob pontes e tubulações, ainda que carecendo de aperfeiçoamentos e de conservação, pois, apresentam falhas estruturais e de “design” que podem explicar o porquê do atropelamento e morte do primeiro guará registrado em Ilhota.

Pesquisando, Jerriane Gomes descobriu que a BR 470 tem um setor ou grupo de Gestão Ambiental e que existe até previsão de construção de um passa-fauna aéreo, em forma de viaduto vegetado, daqueles que só se veem em países ditos mais adiantados que o nosso, onde a fauna possa atravessar em total segurança, no km 46, entre os bairros de Belchior, em Gaspar e Fortaleza, em Blumenau. Porém, a duplicação no trecho está pronta e o trânsito é veloz e intenso. Enquanto o viaduto não sair do papel o derramamento de sangue da fauna silvestre não sairá do asfalto.

Passa-faunas não são feitos apenas (apenas??) para proteger a fauna, protegem os usuários das rodovias também. Um carro se deslocando, mesmo que dentro da lei, entre 80 e 100 km/hora mata não apenas uma capivara de 60 quilos que atravesse a rodovia. A batida nessa velocidade contra um bicho com esse peso tem potencial de causar graves danos ao veículo e descontrole da direção, podendo levar o carro atropelante a abalroar outros veículos e/ou ou cair fora da pista, ferir e até matar seus ocupantes humanos, ocupantes de outros carros e mesmo pedestres no acostamento.

Com o avanço da ocupação humana e valorização das propriedades, o trajeto de novas rodovias costuma ser desenhado para evitar ao máximo edificações e outras benfeitorias, objetivando baratear os custos da obra pela diminuição do volume das desapropriações que custariam, em tese, muito caro. Opta-se, então, por traçados que “atropelam” os últimos fragmentos de vegetação nativa. Acontece que em se diminuindo os custos financeiros amplificamos significativamente, por outro lado, os custos ambientais. A rodovia atropela o ecossistema e os carros, depois dela inaugurada, passam a atropelar a fauna nativa.

Florestas que já são fragmentadas ficam ainda mais retalhadas quando cortadas ao meio por uma nova rodovia, tornando a sobrevivência da fauna muito mais difícil do que já estava. Portanto, torna-se obrigação da sociedade e seus governos tomar todas as medidas possíveis para minimizar os danos que uma nova via (ou duplicação) possa causar aos ecossistemas naturais. Como é muito difícil neutralizar os danos ambientais, a não ser que sejam adquiridas outras áreas de igual ou maior tamanho e valor ecológico e destinadas para preservação, que, pelo menos, se minimize o problema.

O conjunto das medidas compensatórias e mitigatórias, como cercamento das rodovias e adequada indução à fauna para cruzarem a estrada por meio de passa-faunas aéreos e subterrâneos, mesmo bem implantadas e de alta qualidade, melhor, portanto, do que o que vimos em Ilhota, dificilmente onerará em mais de 1 (um) por cento o custo de uma nova rodovia ou duplicação de rodovia existente.

A duplicação dos 73 km da BR470 entre Navegantes e Indaial, inicialmente orçada em 860 milhões, já está custando o dobro, entre 1,6 e 1,7 bilhões de reais. Com um bom planejamento e sequenciamento ininterrupto da obra (coisa que não aconteceu nesse caso), poderia ter sobrado alguns milhões de reais para uma boa implantação de passa-faunas, salvando muitas vidas de animais silvestres e ainda sobrariam recursos nos cofres públicos.

Dinheiro, aparentemente, não falta. O que o Brasil precisa é de bom planejamento e bom organograma de execução, evitando obras como essa que se arrastam há mais de 13 anos e que acabam quase sempre custando muito mais caro do que deveriam.

Chega de massacre de bichos nas nossas rodovias. Os lobos-guarás, em nome de toda a fauna silvestre, irão agradecer quando cumprirmos com nossa obrigação de protegê-los e assim, quem sabe, num futuro próximo, possamos voltar a cantar nosso Hino Nacional em sua letra original.

Cerca de proteção. Foto: Lauro Bacca

Local do atropelamento do lobo-guará na BR-470. Foto: Lauro Bacca

Local previsto para passa-fauna no bairro Fortaleza, em Blumenau. Foto: Jerriane Gomes

Dedicado ao professor e advogado (nessa ordem) Werner Greuel.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

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Fonte:https://oauditorio.com/colunas/lauro-bacca/04/2026/o-triste-fim-de-um-lobo-guara/