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Alguém no Paço não gosta de árvores Publicado em: 11/05/2026 às 17:49 Alguém no Paço não gosta de árvores Por Lauro Bacca* Por Última atualização 10/05/2026 Foto: Reprodução/Redes sociais Faz alguns anos, alguém ficou com receio de que alguns galhos de uma enorme araucária caíssem em cima de algum carro estacionado no pátio que outrora fora jardim de uma casa que virou sede de empresa na rua Itajaí, em Blumenau e o que aconteceu? Sobrou para o imponente, histórico e centenário pinheiro, que foi simplesmente decepado pela base. Não passou pela cabeça de quem quis se livrar do perigo sequer pesquisar do porquê aquela majestade de 30 metros de altura e mais de um metro de diâmetro estar ali. Sobre quem plantou, por que plantou, quando plantou, se era espécie rara ou ameaçada, se nativa ou não nativa. Muito menos passou pela mesma cabeça que poderia haver alternativas práticas e baratas de prevenir acidentes com quedas de galhos sem necessidade de perpetrar tamanho “dendrocídio”. Nada, nadinha, zero à esquerda. Certamente houve também alguma malícia nesse ato, pois, a licença de corte foi obtida não no órgão ambiental municipal, que tem lavado as mãos da seiva derramada, mas, sim, na Defesa Civil. Esta, tampouco, se deu ao trabalho de analisar alternativas que permitissem a portentosa gimnosperma permanecer viva e de pé e canetou, de imediato, a sentença de morte daquele gigante. O caso foi parar no Ministério Público por denúncia da Acaprena e os responsáveis, foram acionados juridicamente pelo “fitoassassinato” por motivo fútil. Antes do verão do ano passado foi a vez da discutível sentença de morte para algumas árvores na praça Getúlio Vargas, na intersecção dos bairros Garcia, da Glória e Progresso. Apesar da condição de praça-rótula de trânsito, ela sempre foi bastante frequentada pela população. Frequentadíssima justamente pelo fato desta praça ter muita sombra de frondosas árvores, algo que não se repete em outras praças-rótulas, como as pouco sombreadas e – coincidência ou não – muito pouco frequentadas praças Mascarenhas de Moraes no início do “Reino do Garcia” e a do Estudante, no início do bairro Vila Nova. O motivo, torpe por sinal, foi que as malvadas árvores tiveram simplesmente a ousadia de crescer e ameaçar encostar em fios de alta tensão inexplicavelmente esticados a baixa altura acima delas. Novamente prevaleceu a mentalidade do “entre o que o homem construiu e o que a natureza fez, ficamos com o que o homem construiu”. De nada adiantaram os protestos dos taxistas que ali aguardam seus passageiros protegidos do sol escaldante de verão pelas confortáveis sombras daquelas árvores. Do órgão municipal de meio ambiente saiu a informação de que várias mudas teriam sido plantadas para repor sombras que, sabe-se lá depois de quanto tempo, iriam substituir as sombras deletadas, mas, mentira, não se viu uma nova muda sequer plantada no local. Prevaleceu a fúria assassina dos viciados na fumaça e tarados pelo barulho das motosserras. Alternativas como esticar a fiação mais para o alto ou mesmo fazer um pequeno desvio dela para que as copas pudessem se desenvolver livremente, ou instalação de material isolante por poucos metros dos fios, nada que fosse tão difícil nem tão caro, nada, nadinha, zero à esquerda. Depois da Praça Getúlio Vargas chegou a vez da margem direita do rio Itajaí-Açu que, deixada ao deus-dará por muitos anos, necessitava, de fato, de uma repaginada. As caras e preclaras leitoras e leitores já devem ter adivinhado o que aconteceu. Prevaleceu a devassa, o corte muito além do necessário. De critérios ecológicos, assunto que podemos melhor tratar numa outra ocasião, nada, nadinha, zero à esquerda. Com ambas as margens do rio Itajaí-Açú raspadas e sem uma mínima arborização mais natural no Centro e, com isso, sem chances de passagem de fauna silvestre em nenhuma das margens, exceto capivaras, raríssimos outros mamíferos que se aventuram por área aberta, assim como relativamente poucas espécies de aves, chegou a vez, no mês passado de abril deste 2026, de mais uma inexplicável detonação de árvores junto à margem direita da foz do ribeirão da Velha. Como se tudo isso e muito mais não bastasse, no último dia seis deste maio, foi a vez do estrondo das motosserras ser ouvido, a fumaça e os cheiros de madeira cortada serem sentidos na praça Hercílio Luz, local histórico de desembarque dos imigrantes europeus que para cá aportavam. As que sobreviveram deste dendrocídio foram deixadas nuas, despidas de quase todas as plantas epífitas que cobriam muitos troncos e galhos, como orquídeas, trepadeiras, samambaias, cactáceas e bromélias. Essas epífitas muitas vezes formam um belíssimo e exuberante universo biodiverso suspenso em plena área urbana da cidade, atraindo, alimentando e protegendo inúmeras aves e invertebrados que teriam ali maiores chances de sobreviver em meio a aridez do concreto e asfalto. No entanto, elas foram simplesmente defenestradas e não consideradas pelos dendropatas do paço municipal. De atitude menos antropocêntrica e mais ecocêntrica, baseada num ponto de vista do estético natural, ambiental e um mínimo de tolerância ecológica, nada, nadinha, zero à esquerda. Ao que consta, o novo concessionário de uso da choperia dessa última praça pediu e a autorização foi imediata e submissamente expedida pelo órgão ambiental municipal. Choperia que vai ser assumida por ninguém menos que a famosa alemã Hofbräuhaus, de um país que sabe cuidar de cada galho e cada raiz de cada árvore urbana que lá existe melhor que ninguém e que certamente nem tem ideia do que seu operador no Brasil andou aprontando. “Retirar o excesso de epífitas”, foi a autorização. Qual o critério para excesso, nesses casos? Tudo ficou por conta do achômetro do realizador de uma “limpeza” de algo que está a anos-luz de ser considerado sujeira. Mas a chacina arbórea não parou aí. Alguém invocou com várias outras árvores, palmeiras e outras espécies e mandou detonar todas, sem dó nem piedade, novamente, sem absolutamente qualquer critério técnico que pudesse justificar tamanho descalabro. Árvores absolutamente saudáveis foram cortadas, uma delas talvez centenária, com mais de 80 cm de diâmetro. A justificativa de erradicar espécies exóticas invasoras não se sustenta nesses casos. Com tanta eliminação sumária de árvores parece que alguém do paço municipal acha que os frequentadores da praça doravante seriam apenas lagartos que adoram se esparramar ao sol e não humanos que preferem o conforto das sombras na cálida Blumenau. Como saber? Comenta-se nos bastidores que a Blumenau capital do “Vale Europeu” corta cerca de 500 árvores urbanas por mês e que nesse ritmo corremos o risco de logo nos transformarmos num deserto urbano. Qualquer folha que caia sobre a orelha ou nariz de alguém parece ser motivo de derrubar árvores e o mau exemplo do paço começa a se proliferar nas propriedades privadas. Correm rumores pelos corredores do paço municipal que alguém lá dentro invocou que queria ter visão para a ponte metálica da extinta estrada de ferro e que esse mesmo alguém comentou que “tem mais que cortar essas porcarias que não servem para nada”, coisa que vários pares de ouvidos ouviram. Na sequência os cortes junto à foz do Ribeirão da Velha foram feitos igualmente de forma exagerada e questionável, canetados novamente por alguém externo ao órgão ambiental municipal com a conivência do ocupante principal do terceiro andar. Diante disso fica aqui a pergunta: se o problema é abrir a visão ampla para a paisagem, por que o(s) dendrófobo(s) do paço municipal não derrubam todas as paredes externas de suas moradias e escritórios, ao invés de ter que se contentar apenas com janelas? Sei lá, vá saber. *Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor. Leia outros textos do autor aqui. Fonte: https://oauditorio.com/colunas/lauro-bacca/05/2026/alguem-no-paco-nao-gosta-de-arvores/ |
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