DESTAQUES
Voltar

Blumenau entre as cidades a favor do El Niño



Blumenau entre as cidades a favor do El Niño

Por Lauro Bacca*

Por

Redação

Última atualização 31/05/2026

Foto: Arnaldo Zimmermann / O Auditório / Arquivo de 2023

O El Niño, sim, deverá aumentar a temperatura do oceano pacífico e, com isso, influenciar no volume de chuvas no sul do Brasil, incluindo, naturalmente, o Vale do Itajaí, a partir do inverno e da próxima primavera que se avizinham.

Por enquanto ainda é cedo para se pode afirmar que isso poderá provocar enxurradas catastróficas. Mas há municípios se precipitando no calor da emoção e, talvez, mais por razões políticas do que técnicas, decretando situação de emergência, antes mesmo de qualquer evento climático acontecer.

Blumenau, mais ponderada e com pé no chão, decretou Estado de Alerta Climático, instrumento legal muito mais adequado à atual situação, em contraposição à possível “farra climática” adotada em outros lugares.

Se uma vidente (para quem acredita) dissesse a alguém que ele teria chance de ter um acidente com seu carro nos próximos dias, não deveria ser por isso que esse alguém correria para uma oficina para fazer uma revisão completa do seu veículo. Não precisamos de alertas especiais para manter nossos veículos em condições permanentes de trafegabilidade, principalmente nos quesitos relacionados à segurança. A revisão periódica deve ser uma constante e feita a intervalos regulares de quilometragens percorridas e ponto.

Assim deveriam agir todos os governos quando se trata de gestão preventiva de suas áreas de jurisdição. De desobstrução de bocas de lobo, canalizações adequadas de águas pluviais, manutenção em dia de canoas, barcos, motores hidráulicos de diques de contenção até controle de ocupação de áreas inadequadas e gestão ambiental adequada, tudo deve ser uma constante na rotina de nossas administrações públicas e não apenas quando se anuncia a possibilidade de uma catástrofe.

Em que pesem os méritos no decreto municipal de Blumenau, há que se registrar uns aspectos estranhos no mesmo.

Primeiro, a expressão “luta contra” o El Niño. Não seria mais adequado tratar de medidas preventivas contra os efeitos desse fenômeno? A depender do que nossas cidades têm feito, Blumenau fortemente inclusa nisso, elas têm mais agido para potencializar os efeitos do El Niño do que minimizá-los.

Por exemplo, o controle dos aterros indiscriminados em baixadas alagáveis, reservatórios naturais de águas, mitigadores importantíssimos dos efeitos das enchentes e enxurradas deixam quase que totalmente a desejar. A ênfase exagerada na “limpeza” e nas dragagens, atacando, portanto, os efeitos e não as causas dos assoreamentos é outro aspecto do qual nossas administrações estão a anos-luz de fazer o correto. E não é por falta de aviso.

E quando ocorrem as dragagens, o material dragado costuma ser depositado ali mesmo, nas baixadas alagáveis e nos leitos secundários dos rios, trocando, a médio e longo prazo, literalmente, seis por meia dúzia. Mas, quantos gestores públicos se preocupam com o que virá depois da próxima eleição?

Nosso planeta, no qual localiza-se Blumenau, diga-se de passagem, já perdeu gigantescas partes de suas florestas. Diante dessa calamitosa situação, qualquer corte não absolutamente justificado de árvores deveria ser considerado crime – e Blumenau tem praticado esse crime alegre e impunemente nos últimos tempos, como já temos reiteradamente enfatizado neste espaço.

Arvores retém carbono, que é o principal gás do efeito estufa. Quando da decomposição das árvores abatidas esse carbono volta à atmosfera, potencializando esse mesmo efeito estufa que, por sua vez, potencializa os efeitos do El Niño. Blumenau, portanto, tem mais agido a favor do que contra o El Niño, ao contrário do que reza o decreto.

Finalmente, soa estranho ler que “durante a vigência” do decreto, os órgãos e entidades da Administração Pública Municipal deverão intensificar a fiscalização de ocupações irregulares em áreas suscetíveis a desastres. Ora, a fiscalização, intensa e efetiva, não deveria ser permanente e ininterrupta? Ou será que as ocupações irregulares, todas, e não apenas as que ocorrem em áreas suscetíveis a desastres podem ter sua fiscalização afrouxada fora da vigência do decreto?

Se alguém comenta na internet que precisamos limpar as bocas-de-lobo, “limpar” nossos rios, dragá-los, “endireitá-los”, construir mais canais de escoamento e medidas similares, fruto de visão meramente reducionista do problema, pode-se perdoar. Mas, a governos que repetem sempre essa mesma ladainha, num primitivismo de gestão de paisagem de dar dó, não se pode perdoar, jamais.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

Leia outros textos do autor aqui.

Fonte: https://oauditorio.com/colunas/lauro-bacca/05/2026/blumenau-entre-as-cidades-a-favor-do-el-nino/